quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dicas para a sonorização de ambientes muito reverberantes


Um dos maiores problemas enfrentados por quem lida com sonorização é o que fazer diante de um local com acústica ruim, ou seja, um local muito reverberante. Não adianta ter o melhor equipamento de som, não adianta ter cantores e músicos fantásticos se o ambiente em que haverá o evento é pobre de acústica, com baixíssima inteligibilidade (palavra difícil de pronunciar que significa a capacidade de se entender o que se está sendo falado, cantado, tocado), e consequentemente muita embolação. É problema na certa!


Em tais locais sequer deveria acontecer qualquer tipo de evento onde a sonorização seja necessária, mas sabemos que, por uma série de motivos, são esses os locais escolhidos para eventos como evangelizações, cultos, até mesmo instalação de igrejas. E sobra sempre para o operador de som a dificílima tarefa de tentar "domar" a acústica, como se esta fosse um animal selvagem. 


Para ajudar nesta árdua tarefa, apresentamos a seguir uma série de dicas que ajudarão não a resolver, mas a minimizar tais problemas, e tornar as coisas um pouco "menos piores".



1) Mantenha o volume o mais baixo possível - sempre!
Quanto maior o volume de som, mais reverberação teremos, não há como fugir disto. Então, limite-se ao mínimo necessário para todos ouvirem bem, e nada além disso.


2) A música acompanha o tipo de local.
Na Idade Média, quando construíram aquelas catedrais enormes, com tempos de reverberação (RT60) na casa dos 10 segundos, os músicos/cantores perceberam que seria necessário adaptar o tipo de música da época aquele tipo de construção. Surgiu então o "canto gregoriano", música bem lenta, com notas bastantes longas. Adaptar a música foi a única forma de se fazer entender alguma coisa.


Hoje, não mudou de figura, mas poucos lembram disto. Certos estilos musicais mais "rápidos" simplesmente não se dão com ambientes reverberantes, enquanto outros, mais lentos, são "menos sofríveis" nesse tipo de ambiente. Na prática, prefira MPB e Bossa Nova, Valsas e Baladas, todos estilos "lentos", ao invés de Rock e alguns tipos de Jazz, entre outros estilos mais rápidos.


3) Os instrumentos musicais e cantores também acompanham o tipo de ambiente
Muita gente acredita que é no "pancadão" do grave que está o gostoso da música, entretanto, graves e ambientes de acústica ruim não combinam, só produzem embolação. A solução é uma só: investir nos agudos, que são pouco afetados pela reverberação, pelo fato de serem facilmente absorvidos por roupas e tecidos em geral.


Se for som instrumental ao vivo, tente dispensar o baixista e até mesmo o baterista. A música perderá o seu componente ritmico e alguns não vão gostar, mas melhor entender alguma coisa que não entender nada. E é uma ótima oportunidade para realçar metais (saxofones, por exemplo) e cordas (violinos, etc).


Se for som ao vivo cantado, prefira vozes femininas às masculinas. Serão muito mais fáceis de entender, aumentando assim a inteligibilidade. E um(a) cantor(a) solo será muito melhor entendido que um coral.


Da mesma forma, cuidado com o equalizador. Se possível, corte os graves abaixo de 100Hz, onde a reverberação é mais forte. Isso é importante em eventos com som mecânico (música de CD, MP3, etc).


4) Cuidado com a localização das caixas acústicas
A definição da quantidade de caixas de som e o posicionamento das mesmas, em instalações fixas, deve ser dado sempre pelos cálculos da Lei dos Inversos dos Quadrados (http://www.somaovivo.mus.br/artigos.php?id=148).


Entretanto, seja uma instalação fixa ou apenas para um evento curto (um dia ou poucos dias), uma regra importante e muitas vezes esquecida é que as caixas devem estar sempre viradas para o público, nunca para paredes e outras superfícies lisas, onde só vão gerar mais reflexões.


Para saber se as caixas estão jogando som para a paredes, uma regra simples e fácil de ser realizada é o teste visual. A grosso modo, se conseguirmos enxergar o falante, também conseguimos ouvir o som direto do mesmo.  Assim, o segredo é que o público veja os falantes das caixas, mas as paredes não. Na prática, dirija-se até as paredes do local e tente ver as caixas acústicas. Se você conseguir ver as cornetas dos tweeters, drivers, em especial o centro da corneta, é porque a caixa está jogando som para a parede. Neste caso, corrija o posicionamento até encontrar a melhor posição possível.


5) Avalie o evento ao levantar o tipo e a quantidade de caixas acústicas
Há eventos e eventos. Em um culto, todos do local querem e merecem ouvir, o que criará um tipo de necessidade de som, uma quantidade de caixas, como citado acima. Mas há eventos onde o som é secundário. Em uma festa (um jantar, por exemplo), as pessoas querem conversar entre si, e o som (mecânico ou ao vivo) não pode atrapalhar isto.


Em festas, deixe apenas poucas caixas, concentradas em um único local, e comece a tocar (ou deixe música de playback tocando) ANTES do início do evento. Quando os convidados chegarem, quem gostar de som alto sentará próximo das caixas, quem não gostar sentará mais distante. Há pessoas que escolhem o local de sentar exatamente pela posição do palco, dos músicos, do DJ. Respeite isto.


Independe do tipo de evento (festa ou culto), a escolha do tipo de caixas levará em conta o estilo musical e a necessidade de graves. Se o ambiente tem acústica muito ruim mesmo, esqueça subwoofers, invista em caixas pequenas, com falantes de 10" ou no máximo 12", que tem menor resposta de graves em relação a caixas com falantes de 15" ou 18".


6) Tente usar a decoração a seu favor
Às vezes, visitando-se o local com antecedência, é possível conversar com os responsáveis pela decoração de forma a colocar peças de enfeite em locais estratégios. Por exemplo:


- plantas atuam como difusores de som, espalhando o som que incide sobre as mesmas. São ótimas para serem colocadas na frente de paredes lisas,  evitando que o som incida diretamente sobre a superfície, o que provocará reflexão do som


- cortinados ajudam a absorver o som, e devem ser instalados sempre que possível junto as paredes.. Entretanto, melhor local para instalá-los não é rente à parede, mas alguns centímetros à frente da mesma. Assim, o som que incide sobre eles é parcialmente absorvido no sentido da ida, e a parte que atravessa o tecido e incide sobre a parede, ao voltar, é novamente absorvido.


- e exija a maior quantidade possível de portas e janelas abertas, sempre que possível.


7) Se o local reverberante é sempre utilizado para eventos, monte paineis móveis (biombos), para adequar o ambiente ao tipo de evento.
A conta é simples: quanto maior o volume do local (altura x largura x comprimento), mais reverberante provavelmente ele será. Ao montarmos biombos, temos a chance de alterar as dimensões do local (altura x largura), diminuindo assim a reverberação do local. Melhor ainda se o biombo for revestido de material absorvente, como Sonex.


A grande vantagem do biombo é permitir a versatilidade do ambiente. Um espaço para 1.000 pessoas pode ser configurado, através de biombos, como para 300 pessoas, para 600 pessoas ou para uso total do ambiente.


Entretanto, tal tipo de solução gera um custo alto, e deve ser adotado apenas se o o uso constante do local compensar o custo. Mas que ajudam muito, isso é.


8) Monitoria - um segredo
Monitorar quer dizer acompanhar, controlar, sentir o que se está fazendo. Se o local onde o operador de som está instalado, com seus equipamentos, for próximo às caixas de som, o operador receberá muito som direto (proveniente das caixas) e pouco som indireto (proveniente da reverberação local). Isso poderá causar a falsa impressão, para o operador, que o som está bom, enquanto na verdade existirá uma grande chance que o som fique péssimo em locais distantes das caixas, e o operador não tome consciência disto.


Assim, tente ao máximo colocar a mesa de som em um local mais distante das caixas acústicas, onde seja possível perceber a influência da acústica do ambiente. Se não for possível, levante da sua cadeira e ande pelos locais mais distantes, para "sentir" como está o som lá atrás. Regule o som pensando principalmente em quem senta longe, ainda que o pessoal próximo da caixa reclame que o som está "sem peso" (sem graves). Em casos de sonorização ao vivo, a solução é ter uma pessoa com conhecimento de sonorização no final do espaço, em comunicação com o operador lá na frente. Isso pode ser feito por rádios de comunicação ou... celular. Neste caso, haja conta!


Nunca, nunca tente monitorar por fone de ouvido nesse tipo de local. Nos fones não há influência da acústica, e tudo sempre soa perfeito. O fone tem seu uso na avaliação de canais, mas nunca deverá ser usado como referência para o som do PA (que o público ouve).


9) Se som ao vivo, implemente retorno por fones para os músicos e cantores.
Se já é complicado cuidar do som das caixas de PA e tentar "domar" a acústica, para os músicos a situação também não é fácil. A acústica trará embolação no som dos seus retornos, e consequentemente eles vão pedir para aumentar o volume dos retornos, o que por sua vez gerará mais volume, o que por sua vez criará mais embolação, em um ciclo vicioso sem fim. E ao final do evento, todos insatisfeitos.


A única solução possível é implementar retorno por fones de ouvido, com o uso de  amplificadores de fones, individuais (tipo Powerclick) ou coletivos (tipo Powerplay).


10) Não tem jeito: para consertar de vez um ambiente acusticamente ruim, só com investimento em tratamento acústico.
Tudo o que informamos acima são paliativos.  Ajudam a minimizar os problemas decorrentes de uma acústica ruim, mas não os resolvem. A única solução definitiva é procurar um profissional de acústica, para fazer o estudo do ambiente e o o respectivo tratamento do local. É um investimento caro, mas possível, e o resultado se percebe no ouvido!


Autor:  Fernando Antônio Bersan Pinheiro
Retirado de http://www.somaovivo.mus.br/artigos.php?id=196

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