sábado, 8 de fevereiro de 2014

Cego dirigindo e surdo cuidando de som


Já imaginaram um cego dirigindo?? Na verdade, não dá para imaginar isso. Mas meu tio era quase isso. Ele usava um óculos de sol escuríssimo à noite, porque dizia que as luzes dos faróis e postes o incomodava. Ele acabava enxergando muito mal à noite, e se acidentou com o carro inúmeras vezes, sempre à noite. Levou alguns anos (e muitas despesas) para descobrir que o errado era ele, que não poderia dirigir daquela forma.

Nas igrejas, temos um monte de "surdos" cuidando de som. Não surdos por deficiência física, mas "surdos" porque estão sentados em um lugar em que não conseguem escutar o mesmo som que a igreja escuta. E assim, posicionados errado dentro da igreja, acabam se tornando "surdos", o que atrapalha o trabalho, e muito!


Para um operador de áudio regular o som, ele tem que escutar o que você está fazendo. Quanto melhor escutar, melhor poderá regular. Isso dependerá diretamente do posicionamento do operador (e por consequência, dos equipamentos) em relação às caixas de som do P.A (no caso, as caixas da igreja).

A melhor posição possível seria no meio da platéia. Exatamente no meio, tanto no comprimento quanto na largura do tamanho esperado para a platéia. Nessa posição, o técnico consegue regular o som perfeitamente. Ele escutará o mesmo som que a platéia, inclusive com as interações do som no ambiente (a acústica do local). Mesmo quanto ao volume geral, ele conseguirá fazer uma boa "dosagem". E quem gostar de som com mais volume, ficará à frente dessa posição. Quem gostar de som com menos volume, ficará atrás. E próximo ao operador, o som estará em um volume "médio".

Existem igrejas em que o som é realmente instalado no meio do templo. Mas são poucas. Onde acontece isso, tal posição vem desde o projeto e concepção da igreja. Parabéns para as igrejas onde o som é assim. Mas temos visto inúmeras situações onde o operador de som está em posição ruim, tão ruim que o resultado é afetado por isso. Vejamos algumas posições possíveis:

a) lá no fundo da igreja, após o último banco.
-Vantagens: dá uma noção ótima do som em toda a igreja. Técnico de áudio não sofre interferência dos retornos dos instrumentos, que ficaram lá na frente.
-Desvantagens: fica longe dos acontecimentos. Não pode se antecipar aos problemas, não há como passar um microfone a mais ou acertar alguma coisa caso necessário. Se o som estiver no mesmo nível que a igreja, a visão dos músicos e cantores também é prejudicada (por isso muitas igrejas fazem um pequeno mezanino para o som, para ficar mais alto). A parede atrás do operador pode influenciar negativamente a acústica, por causa de reflexões, principalmente de graves.

Conclusão: nessa posição se escuta muito bem, vê pouco (se tiver mezanino vê bem), nada consegue fazer em caso de problemas.
Resultado: nenhuma microfonia, excelente regulagem, mas agilidade zero.

Como pode melhorar? Com uma equipe de pelo menos dois membros, em comunicação por rádio. Um fica atrás, nos equipamentos e outros junto às lideranças da igreja, músicos e cantores, para resolver problemas que aconteçam. A agilidade será dada pelo operador que estiver na frente. O resultado será muito bom.

b) lá na frente, rente à parede do altar, próximo dos músicos e dos cantores.
- Vantagem: próximo ao pastor, vê tudo o que acontece com ele e também com os músicos e cantores (que geralmente situam-se próximos também).Consegue resolver as necessidades: passar mais um microfone, ligar mais um instrumento, trocar uma pilha do microfone sem fio que acabou no meio da pregação…
- Desvantagem: não escuta nada. Ou melhor, escuta TUDO de som direto (dos instrumentos, dos cantores, dos retornos deles) e NADA do que a igreja está escutando. Se torna um operador para os músicos e cantores, não para a igreja. O pior é que músico gosta de tudo alto.  Não escuta a acústica da igreja.

Conclusão: escuta muito mal, vê bem, consegue ter boa agilidade em caso de problemas. Resultado: muitas microfonias, péssima regulagem (mas instrumentistas gostam), igreja toda reclamando.

Como pode melhorar: alguns usam fones de ouvido (que devem ser do tipo fechado) para regular o som e evitar a influência do som direto dos músicos, cantores e pregador.  É possível até colocar uma caixa de som (deve ser sempre igual às do PA) para se ter noção do som que o público recebe. Mas a melhor idéia é ter uma equipe de pelo menos 2 operadores, em comunicação via rádio. O segundo operador fica mais recuado, no meio da igreja ou atrás, e passa para o operador as necessidades de regulagem (aumenta isso, abaixa aquilo, etc).

Lembrando que, nesse caso, quem "manda" na regulagem é quem estiver situado na melhor posição para ouvir. Se o operador de trás manda abaixar o teclado e o da frente achar que tem que aumentar o teclado mais, prevalece quem está ouvindo o mesmo som que o público.

c) lá na frente, rente à parede do altar, mas por trás dele, em uma pequena sala, vendo o púlpito por uma janela, de costas ou lateralmente  para o pregador.
- Vantagem: esteticamente é uma das melhores posições, pois se tira os equipamentos de dentro da igreja. Está próximo ao pastor, vê tudo o que acontece com ele e também com os músicos e cantores, e ninguém o vê, pois está em posição bem escondida. Se a janela for protegida por vidro, sofrerá pouca influência do som direto dos dos músicos e cantores e seus retornos. Os equipamentos ficam muito bem protegidos, já que estarão em sala própria. Dá para pedir um ar-condicionado somente para a sala (se usar a "desculpa" que é melhor para os equipamentos, consegue).
- Desvantagem: não escuta nada da igreja. Nesse caso, deve haver caixas de som de referência (caixas de estúdio) para fazer o papel de monitoria do som que a igreja estará recebendo.

Conclusão: escuta muito bem, mas o som é diferente do que a igreja recebe (não há influência da acústica do local). Posição muito utilizada em igrejas com palco, e que fazem gravações dos cultos. Boa visão, mas agilidade zero.

Como melhorar: se não houver as caixas de referência, será a pior posição possível para se escutar o som da igreja. Entretanto, muitas lideranças das igrejas não querem os equipamentos à mostra no templo e exigem que os mesmos fiquem em outros locais. Uma forma de melhorar é manter uma equipe de 3 pessoas, duas pessoas com rádio, uma próximo ao púlpito, músicos e cantores, para dar agilidade e resolver problemas e outra uma pessoa com rádio lá atrás, fazendo o monitoramento do som e passando para o operador o que fazer.

Conclusão geral.

Cada caso é um caso. Temos igrejas para 50 pessoas e para 2.000 ou mais membros. Temos lideranças que vão aceitar pessoas com rádios dentro da igreja e outros que não vão aceitar isso de jeito nenhum. Há situações em que a estética é mais valorizada que a qualidade sonora (situação infelizmente muito comum). Há casas adaptadas para serem igrejas e há igrejas construídas desde o início se pensando no som, na acústica. Enfim, há de tudo, e a questão de posicionamento é realmente complicada. Não é só uma questão técnica, exige "jogo de cintura".

Coloco sempre como necessidade primordial o operador de som ouvir o mesmo som que a igreja escuta. O mesmo, não de fones, não de caixas acústicas diferentes, etc. Ouvir o som como o público escuta. Evidente que, para isso, a posição no meio da igreja, citada lá no início, é a melhor de todas, mas a mais difícil de se conseguir.

A preocupação do operador de som tem que ser tentar convencer as lideranças que conseguirá fazer um serviço melhor se conseguir um bom posicionamento dentro do templo. E que se isso não for possível, é necessário tentar solucionar tal situação de outra forma (rádios, caixas de referência, etc). O que não pode é estar "surdo" e, nessa condição, cuidar do som para os outros.

Retirado de - http://www.somaovivo.org/artigos/cego-dirigindo-e-surdo-cuidando-de-som/

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